Ela tinha esse dom de observar o mundo como uma câmera de filmar.
gostava de ficar horas a fio prestando atenção numa mesma cena.
enquanto reparava no movimento externo, percebia que internamente também havia uma trasnformação e gostava disso.
se olhando por dentro, parecia aceitar melhor a vida como vem.
passara anos sem pedir muito, apenas tentando se expressar, criando vínculos.
mas com o passar do tempo, suas vontades e desejos foram se modificando,
e, onde antes havia um abraço sempre pronto,
começou a nascer uma exigência.
sua pele, seu corpo, as marcas em seu rosto,
tudo estava mudando, mexendo, comunicando.
ela se olhava no espelho agora e se sentia mais mulher,
mais segura de sua existência.
talvez fosse o tempo que tivesse passado.
talvez fosse alguma outra explicação exotérica.
o fato é que ela ficara mais ela.
no meio de tanto turbilhão, tantas transformações,
sentimentos novos também apareceram.
ou, na verdade talvez, ela estivesse percebendo sentimentos antigos,
que viviam adormecidos,
mas que agora tinham novas tonalidades.
se sentiu triste pelos sentimentos que não dava conta de resolver sozinha.
vivia repetindo para si mesma que precisava fazer terapia.
mas para outros sentimentos, abria um sorriso.
era como se, no desabrochar de sua maturidade,
uma ponta de esperança e otimismo cismasse em se apresentar.
se lembrou de seu amor antigo.
em que gaveta desse imenso móvel cotidiano ela teria deixado ele?
antes, sabia que vivia pela casa,
no sofá, na cama, em cima da mesa.
mas quando olhou melhor,
percebeu que eram apenas objetos,
o conteúdo afetivo tinha perdido o brilho e a cor,
em meio a tanta burocracia da vida moderna.
seu amor não tem nome,
é dela.
mas tem sim uma forma.
será que é possível restaurá-lo?
enquanto os dias passavam,
ela tentava de todas as formas chamar atenção.
chorava como criança,
ou ligava infinitas vezes,
para ter certeza que do outro lado diriam: oi meu amor.
ela precisava confirmar que ainda havia amor entre eles.
mas ela ainda guardava aquela confiança de sempre.
mesmo em noites quentes,
tomada pela insônia inesperada,
ela sabia que estava sendo cuidada.
Por agora, era só isso de que precisava.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário